"Não digo que estão debaixo da ponte, mas quase"

Na tradicional Mensagem de Natal, o Bispo da Diocese da Guarda apela ao bom acolhimento dos refugiados que chegam a Portugal e recordou as dificuldades dos estudantes dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa no Instituto Politécnico da Guarda, que continuam a chegar todos os dias à Cáritas, com diversas carências.

"Infelizmente ainda há muito a fazer no combate à pobreza", começou por referir o Bispo da Guarda que aborda a questão da pobreza "mais ou menos extrema, onde faltam os bens materiais elementares. Apesar dos objectivos do milénio, que pretendiam reduzir para metade a pobreza no mundo até 2015, infelizmente ainda há muito que fazer, neste combate".

D.Manuel da Rocha Felício afirma que "a lição do presépio convida-nos a percorrer sempre caminhos que conduzam à plena inclusão social de todas as pessoas, mesmo daquelas que, por circunstâncias várias, deixaram a sua pátria e a sua cultura de origem e batem agora à nossa porta", deixando como exemplo os refugiados acolhidos no Seminário do Fundão "estou a pensar em 19 refugiados que foram recolhidos do navio Aquarius e que foram acolhidos no Seminário do Fundão, 17 etíopes e dois sírios, todos jovens que estão ali para terem o acolhimento a que têm direito, assistente social, saúde, educação, é uma forma de dar darmos cumprimento a este imperativo que vem da nossa consciência, porque sociedades xenófobas não vão a lado nenhum”.

Também temos casos destes muito perto de nós, "uns passantes e outros que se fixam em maior ou menor permanência" refere o Bispo da Guarda dando também como exemplo os muitos estudantes dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa que chegam anualmente à região para ingressar no ensino superior “nós temos aqui na Guarda um facto específico, os nossos amigos dos PALOP que vêm à procura da formação no IPG; temos que investir muito para lhes dar o acolhimento a que eles têm direito, falamos da Cáritas, para lhes darmos a atenção que merecem e têm direito, porque se não lhes damos a verdadeira a atenção o melhor é não mandá-los vir, e nem digo coisas que me têm dito nestes últimos dias, temos que encontrar um caminho de dignidade para eles" alertou D. Manuel da Rocha Felício.

O Bispo da Guarda acrescenta que muitos destes jovens estudantes dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa vivem em situações muito grave de falta de acolhimento, é quase como viver debaixo da ponte "o IPG tem mecanismos próprios que não podem responder às necessidades todas que existem e os factos provam-no. Há situações bastante graves de falta de acolhimento, habitação indigna, não digo que estão debaixo da ponte, mas quase”.

Declarações deixadas pelo Bispo da Guarda à margem da tradicional Mensagem de Natal intitulada este ano "Natal de Jesus. Igreja em missão"

"Jesus nasceu, segundo a genuína tradição, num presépio, nos arredores de Belém, portanto fora da cidade, por não haver para Ele lugar nas hospedarias. A festa de Natal existe para celebrar este acontecimento, com toda a sua importância para a salvação das pessoas e do mundo.

Jesus é, de facto, o salvador, jubilosamente anunciado pelos anjos cantando “glória a Deus nas alturas”, alegremente visitado pelos pastores que pernoitavam nas redondezas e depois adorado pelo reis magos, vindos de longe com seus presentes e guiados pela estrela.

Foi assim que o Filho Único de Deus iniciou o cumprimento da missão que o Pai lhe confiou. Assumiu a nossa condição humana até às últimas consequências, incluindo a rejeição, o sofrimento e a morte. E, durante toda a sua vida na terra, saiu, de mil maneiras, ao encontro das pessoas para as compreender nas sua situações de vida e as ajudar a superar as dificuldade que são de todas, sem excepção, embora diferentes de umas para as outras.

Assim, qual bom pastor, partiu ao encontro da ovelha perdida, sabendo que a alegria do reencontro com Deus e com as razões de viver que ele inspira nada as pode substituir. Como bom samaritano, não fez como o sacerdote, o levita e tantos outros que, invocando as mais variadas razões e muitas delas válidas, passaram ao lado e ao largo. Não. Ele parou, olhou, encheu-se de compaixão e agiu de imediato em favor daquele que jazia prostrado na berma da estrada e já meio morto.

Hoje é a nossa vez.

Enquanto discípulos deste grande Mestre, cumpre-nos continuar a sua missão, no momento actual, fazendo bem sem olhar a quem.
De facto, a lição do presépio conjugada com os imperativos da hora actual desafia-nos a ser Igreja em saída para as periferias existenciais do nosso tempo, a fim de aí continuarmos a obra salvadora, verdadeiramente humanizadora, do mesmo Jesus.
E nestas periferias aonde a missão nos conduz e que estão mais perto de nós do que muitas vezes imaginamos, aparecem-nos situações muito variadas.

Umas vezes é a pobreza mais ou menos extrema, onde faltam os bens materiais elementares a pedir-nos respostas adequadas. Apesar dos objectivos do milénio, que pretendiam reduzir para metade a pobreza no mundo até 2015, infelizmente entre nós ainda há muito que fazer, neste combate.

Outras vezes são o abandono e o isolamento em que, infelizmente se encontram muitas pessoas nos nossos meios, porque filhos e outros familiares mais ou menos próximos tiveram de partir à procura de meios de vida que aqui não encontram. Esta é uma realidade crescente entre nós e tem levado as forças do ordem pública a reforçar o cuidado com a defesa de pessoas e bens.

Sabemos, porém, que nada pode substituir a relação de proximidade, sobretudo a familiar. Há ainda periferias feitas de pessoas que estão à margem, sem que lhes falte pão para a boca ou outros meios materiais. Falta-lhes, sim, a necessária inserção na vida social e comunitária, ou porque não têm trabalho, ou porque vêm de outros ambientes e culturas ou por qualquer outra razão. A lição do presépio convida-nos a percorrer sempre caminhos que conduzam à plena inclusão social de todas as pessoas, mesmo daquelas que, por circunstâncias várias, deixaram a sua pátria e a sua cultura de origem e batem agora à nossa porta. Também temos casos destes muito perto de nós, uns passantes e outros que se fixam em maior ou menor permanência.

Não podemos também esquecer que temos hoje significativo número de pessoas, sobretudo adolescentes e jovens, que têm tudo e às vezes até demais, mas falta-lhes o essencial que é a relação interpessoal e comunitária, sobretudo em família, capaz de os desafiar à ousadia de tomarem a vida em suas próprias mãos e fazerem as escolhas certas. O recente Sínodo dos Bispos sobre os jovens, a Fé e o discernimento vocacional desafia não apenas os jovens mas a própria sociedade, nas pessoas dos seus responsáveis, a ousarem tomar decisões para a vida.

A lição do presépio convida-nos para a grande missão de ajudar a que todos encontrem o sentido de vida que o Menino de Belém veio anunciar".

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